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Foto: José Cruz/Agência Brasil

Resposta à carta de Pedro Parente aos petroleiros

Cláudio da Costa Oliveira

Na última segunda feira (1º/08), o atual presidente da Petrobras, Pedro Parente, encaminhou carta aos petroleiros tentando justificar o plano de desinvestimento que está em andamento na empresa. Na carta Parente reclama da “violência verbal” dos petroleiros que se reuniram em frente ao Edise (sede da Petrobras no RJ) na semana passada. Parente destaca : “ é arma utilizada por aqueles que não tem argumentos para defender seus pontos de vista”.

Vamos então avaliar quem é que está com falta de argumentos, considerando as afirmações do presidente.

AFIRMAÇÃO DE PARENTE: “Estamos enfrentando a mais grave crise financeira da empresa com endividamento chegando a US$ 120 bilhões”

RESPOSTA: A dívida de US$ 120 bilhões corresponde hoje a R$ 400 bilhões (cambio R$3,30) o que é perfeitamente compatível em uma empresa cujo faturamento bruto anual supera R$ 400 bilhões. Assim nós temos uma relação dívida/receita (400/400) igual a 1. Basta fazer uma simulação de empréstimo imobiliário no site da Caixa Econômica, para verificar que quem tem uma renda bruta anual de R$ 100 mil pode obter um empréstimo superior a R$ 200 mil. Ou seja, uma relação dívida/receita (200/100), superior a 2. Para que não ocorram problemas é necessário que o prazo de amortização da dívida seja adequado à capacidade de pagamento da empresa. Sendo necessário a empresa poderia fazer rolagem da sua dívida ou captar novos empréstimos. Nas últimas duas vezes em que a Petrobras buscou recursos no mercado as ofertas foram muito superiores ao pedido pela empresa. Portanto não existe dificuldade na captação de recursos o que é muito fácil de entender para uma empresa que dispõe de reservas de petróleo (mesmo que ainda não contabilizadas) enormes, como é o caso da Petrobras, que servem como garantia.

Por outro lado, o Banco de Desenvolvimento da China (CDB) abriu linha de crédito (cheque especial) de US$ 10 bilhões para a Petrobras, recebendo como garantia apenas a promessa de vendas futuras de petróleo. Esta linha de crédito ainda não foi tocada pela Petrobras.

Então qual é a lógica para a súbita necessidade de venda de ativos? A explicação está na regra de Wall Street de que a dívida da empresa não pode ser superior a duas vezes sua geração anual de caixa, para que assim seja maximizado o lucro e a distribuição de dividendos aos acionistas. Então vamos reduzir rapidamente a dívida vendendo ativos, para incrementar o pagamento de dividendos para Wall Street? Esta é a lógica?

Parece que a mentalidade neoliberal de Pedro Parente, não consegue entender que a finalidade de uma empresa estatal não é a maximização da distribuição de dividendos. A finalidade de uma empresa estatal está descrita na lei que a cria. A Petrobras é uma estatal, e mais do que isso, é um monopólio, e sua finalidade é contribuir com o desenvolvimento do Brasil Sendo assim de 2010 a 2014, a Petrobras subsidiou os preços dos combustíveis no Brasil, e os brasileiros pagaram um preço inferior ao do mercado internacional. Evidentemente este subsidio reduziu o lucro da empresa e consequentemente os pagamentos de dividendos, o que irritou Wall Street e parte da mídia nacional , ferrenha defensora dos interesses estrangeiros.

Com isto os investidores do Wall Street passaram a vender as ações da Petrobras, fazendo cair seu preço. Agora com Pedro Parente o preço das ações voltam a subir, com a promessa de concentração de todos os esforços da empresa na geração de lucros imediatos e pagamento de dividendos.

Na verdade principalmente com a descoberta do pre-sal, o capital da Petrobras deveria ser fechado saindo da participação em bolsa. É assim na Noruega, no México e na Arábia.

Os objetivos de uma empresa estatal são incompatíveis com os objetivos de uma empresa com ações na bolsa.

AFIRMAÇÃO DE PARENTE : “Este valor (dívida de US$ 120 milhões) supera  dívida externa de mais de 85% de todos os países do mundo de acordo com o ranking da Bloomberg”

RFSPOSTA : Nenhum país do mundo teve a ventura de descobrir as maiores reservas de petróleo encontradas nas últimas décadas. Só o Brasil com a Petrobras.  Qualquer país estaria muito feliz em ter a divida de US$ 120 bilhões, desde que tivessem também  as reservas que o Brasil tem para explorar. Pedro Parente parece desconhecer a pujança da empresa da qual é presidente, cuja receita bruta (R$ 400 bilhões) é superior ao PIB de mais de 90% dos países do mundo, entre eles Bolivia, Paraguai, Uruguai etc.

AFIRMAÇÃO DE PARENTE : “Planos de incentivos a demissões voluntárias nas subsidiárias que por ventura venham a ser vendidas, tem como objetivo garantir que os empregados vinculados a esses ativos tenham uma alternativa de transição adequada a suas carreiras”

RESPOSTA : Os empregados de empresas com a BR Distribuidora e Transpetro não entraram “pela janela”,  tiveram de passar por concursos de elevadíssima concorrência para conseguir suas vagas. Concorreram pela  BR Distribuidora sabendo se tratar da segunda maior empresa brasileira, superada apenas pela própria Petrobras (Revista Exame Maiores & Melhores Jul/2016). Concorreram pela Transpetro , que em 2015 recebeu pela 11ª vez o prêmio de “Maior e melhor do setor de transporte marítimo fluvial”, concedido pela revista Transporte Moderno.

Agora são colocados “contra a parede” forçados a assinar um PDV que não querem e a alternativa é literalmente “cair na privada”, sem nenhuma garantia de emprego e muito menos de progresso profissional.

BR Distribuidora e Transpetro são empresas altamente lucrativas. Então qual argumento para vende-las ? Atingir as metas de Wall Street ?

AFIRMAÇÃO DE PARENTE : “ A hipótese de capitalização da Petrobras pelo tesouro simplesmente não existe, devido à situação fiscal do país”.

RESPOSTA : Na verdade Henrique Meireles andou examinando a possibilidade de capitalização da Petrobras, mas quando verificou a quantidade de oferta de recursos do exterior para a empresa, suspendeu todos os estudos.

Problemas fiscais não existem quando se trata de aumentar salários dos funcionários mais bem pagos do país ( Ministros do Supremo, Policia e Receita Federal etc ) Porque existiriam para ajudar a manter os ricos ativos da Petrobras ?

ENCONTRO COM EMPRESARIOS  

Ainda nesta semana (03/08) em encontro com empresários no Rio de Janeiro, Pedro Parente tentou justificar a recente venda do bloco B-S-8 (Carcará) para a Statoil informando : “Carcará por ser um campo de elevadíssima pressão e estar geograficamente isolado dos demais campos operados pela empresa no pré-sal , tornou-se um ativo elegível para desinvestimento, diante da situação de caixa e endividamento da empresa”.

Ficam então as perguntas :

1) A que distância está Carcará dos demais campos da Statoil ?

2) Qual problema de caixa está se referindo Pedro Parente ? Recentemente (menos de 3 meses), na transferência de comando da Petrobras o ex-presidente Bendine afirmou : “Estamos entregando uma empresa com R$ 100 bilhões em caixa”

Ou seja a Petrobras tem em caixa cerca de US$ 30 bilhões, o equivalente a 25% de toda sua dívida (US$ 120 bilhões) dita impagável. Será que o problema é de excesso de caixa ?

Aos empresários Parente ainda salientou : “ A política de preços de combustíveis da companhia será operada com vistas aos seus objetivos empresariais” Podemos pois entender que os preços dos combustíveis no Brasil serão estabelecidos para maximizar os lucros da Petrobras e possibilitar maior distribuição de dividendos em Wall Street. É isto que eles chamam de administração competente para um monopólio estatal ?

Verificamos portanto que não existem argumentos para a venda dos ativos da Petrobras. Mesmo que nós considerássemos como verdadeiras as premissas de que a) A empresa não pode mais pegar novos empréstimos e nem rolar suas dívidas e b) O governo não tem como capitaliza-la, restaria ainda a possibilidade de parar todos os investimentos, hoje previstos em US$ 20 bilhões/ano, ou pelo menos minimiza-los, o que seria bem melhor do que entregar a preço de “banana” ativos de tamanha relevância para a Petrobras e o Brasil.

* Cláudio da Costa Oliveira é economista aposentado da Petrobras

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