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REFINARIA PETROBRçS CUBATÌO SÌO PAULO 03/12/2010 FOTO: PATRICK GROSNER

Complexidade da Economia do Petróleo

Três temas são tratados por Daniel Yergin em seu livro clássico – The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power: como o petróleo se tornou o maior negócio na ascensão do capitalismo no século 20, como é um produto intimamente imbricado em estratégias nacionais, poder e geopolítica globais, e como a nossa sociedade se tornou uma “Sociedade do Hidrocarboneto”.

Ele analisa as forças poderosas e aparentemente impessoais da Economia e da Tecnologia, assim como as estratégias e habilidades dos homens de negócios e dos políticos em apoderar seus recursos.

Embora considerando toda a complexidade dos conflitos econômicos e políticos, houve um “fio condutor” na história do petróleo, uma sensação contemporânea até para fatos ocorridos há muito tempo e ecos do passado em acontecimentos recentes. A história do petróleo é ao mesmo tempo uma história de indivíduos, forças econômicas poderosas, mudança tecnológica, lutas políticas, conflito internacional e transformação épica.

Em sua leitura, percebe-se que é artificial a análise da Economia do Petróleo apenas em sua dimensão nacional. Porém, não se consegue descrever e explicar “tudo sob o sol” – e seria redundante uma escala 1:1. Seria “um mapa perfeito”, porém inútil…

Dada a complexidade observada, não se pode exigir que o modelo seja igual à realidade. A meta do analista é descrever o mínimo necessário, mensurando a essência do fenômeno, de modo que a modelagem em certas escalas possa ocorrer. Estabelece-se o trade-off  básico entre descrever o mínimo essencial ou ganhar realismo. É necessário valorizar as hierarquias na modelagem.

A busca de entendimento da Economia da Complexidade se afasta da ortodoxia em Economia na medida em que é crítico à noção de equilíbrio, uma constante nas teorias econômicas do mainstream.

Por exemplo, antes da explosão da crise financeira mundial, em setembro de 2008, os economistas ortodoxos imaginavam que o sistema capitalista mundial operava próximo ao equilíbrio, pois “os Estados Unidos consumiam e o resto do mundo lhe financiava”. Depois, passaram a considerar aquele “equilíbrio instável” como um mero recurso analítico para verificar as forças que o levaram a funcionar fora do equilíbrio…

A Economia da Complexidade abandona essa noção de equilíbrio e observa a interação dinâmica entre os agentes heterogêneos, as partes e o meio ambiente físico, socioeconômico e institucional. Sem a análise das conexões em níveis diferenciados de escala, não se pode compreender o fenômeno macrossocial. A despeito da complexidade dos fenômenos observados, é possível distinguir padrões ou classes de comportamento, em casos reais, seja na natureza, seja na sociedade. Esta auto-organização dos sistemas leva à emergência de fenômenos.

A partir de estudos sobre aprendizagem e evolução, percebe-se a relevância da adaptação face às mudanças dinâmicas desses sistemas auto-organizáveis sem autoridade (ou planejamento) central.

Analisando a causa da reversão das expectativas otimistas a respeito do futuro da Economia do Petróleo brasileira, a metodologia mais usual é usar a História, isto é, o passado como guia do futuro.

Na Ciência Clássica, em geral, usa-se o recurso de transformar os sistemas abertos, ou seja, os sistemas dinâmicos, complexos e adaptativos, em sistemas fechados para poder aplicar as leis conhecidas que privilegiam as linearidades em detrimento das não-linearidades.

Isso ocorre para facilitar e simplificar a análise de dados. Mas, na realidade, não se pode esquecer que um agente ao tomar uma decisão espontânea mínima, considerada muitas vezes insignificante, nos sistemas dinâmicos abertos, pode gerar uma transformação inesperada em um futuro incerto.

No caso brasileiro atual, o “agente policial”, ou seja, a Polícia Federal, instigada pelo Ministério Público, desencadeou a operação Lava Jato que, inicialmente, imaginava-se uma simples investigação de lavagem de dinheiro sujo em posto de gasolina, operada por um doleiro em nome de políticos.

Para surpresa geral, não é que se verificou a influência em grandes proporções, ocasionada em sistemas dinâmicos, quando foram feitas alterações muito pequenas nas “condições iniciais” inseridas na programação dos investimentos na indústria do petróleo brasileira?

Ao tentar desvendar como, de fato, a história importa, divergências consideráveis surgem entre os economistas na definição de mecanismos explicativos. A Teoria da Aleatoriedade sugere que se tem de reconhecer a importância concedida ao tema da contingência, um fato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle, pois ocorre de maneira eventual, circunstancial, até desnecessária.

Poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não se ter efetuado. De repente, “a casa caiu!” O risco sistêmico alastrou-se nas cadeias produtivas, rede de fornecedores, empreiteiras de obras públicas, financiadores, investidores brasileiros e estrangeiros, fundos de pensão etc.

A especificação das sequências de eventos os considera como dependentes da trajetória. Torna-se indispensável identificar a lógica operativa das peças e engrenagens de cada um dos mecanismos explicativos. Isso porque as potenciais fontes de mudança e também a susceptibilidade a mudanças variarão a depender do mecanismo explicativo em operação.

No triste (mas necessário) episódio histórico que a sociedade brasileira vivencia, mais uma vez, constata-se o atraso da cidadania. Mas dessa vez não se verifica só a necessidade de acesso a direitos, tal como à educação moral e cívica de qualidade na formação de quadros funcionais, empresariais e partidários, nomeados para cargos públicos sob critério de meritocracia.

É fundamental eles terem consciência de seus deveres como gestores públicos – e idoneidade. Esta é a qualidade de quem desfruta de bom nome no meio social que frequenta, por sua honestidade, boa moral e bons costumes. Não devem se considerar impunes face à malversação, apropriação indébita de fundos, valores, especialmente durante administração de patrimônio alheio de origem pública. Vigiar e punir levará a essa consciência, caso ela não seja adotada pessoal e voluntariamente.

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